domingo, 30 de abril de 2017

TIO JOÃO




João Machado (era ele mesmo), Joãozinho (chamado pelos irmãos),João (Chamado pelos cunhados e amigos) Machado (chamado pelos colegas de serviço),Machadinho (pelos amigos de serviço com carinho),Pai (pelas filhas Sandra, Carla e Cláudia),Tio João (pelos sobrinhos),Vô João (pelos netos Michelle e Rodrigo),Biso (pelos bisnetos Izabelle, Pedro Lucas, João Antonio e Ana Beatriz).
Só me lembro dele com fundo musical. A música fazia parte da vida dele. Lembro-me dos conjuntos regionais, das festas abrilhantadas pela família. Tio Nô cantando junto com tia Dina, Tio Zé fazendo percussão com os tostões, e ele soberano com o cavaquinho ou o bandolim. Foi assim que ele viveu o tempo que lhe deram pra viver. A rudez da juventude embalada pelo amor. A Construção dos viadutos, pontes, cidades, estádios, prédios e casas eram tratados da mesma forma que a construção da família. Não me lembro, se ele assobiava enquanto trabalhava. Mas sei que ele tocava enquanto construía a família. Ele acompanhava minha irmã quando ela cantava. Educou as filhas com música, tocando e cantando. Família que canta unida permanece unida. Das sementes que semeou brotaram frutos, se tem alguém que não canta ou toca, tem gente que aprecia música. Carla, Pedro e Izabelle são testemunhos desta minha verdade.

A família Machado sempre respirou música. Tio Rafael me apresentou os Beatles. Ouvíamos os primeiros discos que chegava ao Brasil, nas tardes de domingo, junto com os seus filhos. Tio Nô tinha uma voz linda, cantava até no rádio. Tio Zé como já disse, fazia percussão com os tostões ou com a caixa de fósforos. Luizinho, do Tio Rafael, cantava e tocava. A Carla canta, toca, faz música e arranjos. O Pedro toca violino... a Izabelle toca flauta... e todos cantam.

E Quem toca e canta, tem amigos que tocam e cantam. E os amigos que não tocavam nem cantavam passavam tardes com ele, jogando baralho. Truco, buraco... E ele sozinho até jogava paciência.

A mim ele ensinou muito, me ensinou desde pequeno a gostar dele. Mas isso não é privilégio meu. Todo mundo gostava dele.

Mas voltando a música... ele me ensinou a embalar a minha filha e os meus netos cantando: Vou deitar, vou dormir com a barriga cheia de juriti.

E por último, para Júlia, pro Miguel e pra Bia ele cantava assim: Periquito maracanã cadê a sua Iaiá?

Aí de cima, meu padrinho, toque pra mim, me benze e me abençoe!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Natal

Aos poucos, a imagem de mamãe vindo do fim da rua, carregando um galho seco de árvore na cabeça e uma lata de banha vazia na mão, vai penetrando nas minhas retinas e clareando a minha visão, Eu e meus irmãos, corremos ao seu encontro e curiosos a rodeamos com perguntas:

- Mãe, para que este galho?

- E esta lata?

Ao tentarmos ajudá-la, o que deveria ser respostas às nossas indagações tornavam-se lembretes:

- Cuidado! Não deixe a lata amassar, não quebre o galho da árvore.

Ao chegarmos em casa o mistério aos poucos era desvendado, uma caixa de algodão, uma folha de papel...

A folha de papel cobria a lata, e o galho seco era plantado na lata cheia de areia; o algodão cobria de branco cada pedaço do galho...

Era Natal!

A caixa de papelão descia do armário e de dentro surgia maravilhas, para enfeitar a árvore; Bolas vermelhas, brilhantes, que refletiam a imagem cuidadosa de mamãe; eram tão sensíveis estas bolas, que quase sempre uma se quebrava. Minha irmã mais velha ajudava tirando de dentro da caixa os enfeites que mamãe ia colocando na árvore: Anjos de barro, figuras recordadas em papel, e um barbante colorido que ia de galho em galho entrelaçando a nossa alegria.

Papai ficava sentado na poltrona e nós que não podíamos ajudar, para não atrapalhar, ficávamos à sua volta observando surgir do galho seco, a nossa bela Árvore de Natal; Mamãe para finalizar, jogava uns papeizinhos dourados picados por sobre a árvore e para brincar, jogava também na barba de papai que sorria e nos abraça de uma só vez.

Depois da árvore, era a vez do presépio. Minha irmã tinha a função de montar o presépio, a cada sete anos era uma das irmãs que montava o presépio. Antes era mamãe que montava. As peças vieram da casa de vovó, depois que ele morreu. Um saco de linhagem, tingido de cinza e passado pó de pedra, era colocado na lareira, formando uma gruta.

Do lado de fora, um espelho coberto com um pouco de areia nas laterais, era colocado no chão, fazendo de conta que era um lago de água límpida, que espelhava os patinhos de barro que minha irmã colocava cuidadosamente sobre o espelho.

Pedras que eram estrategicamente colocadas para segurar o papel nos pareciam montanhas das estradas, por onde José e Maria passaram.

Da velha caixa de papelão ia surgindo as imagens feitas de rezina: José, Maria, a manjedoura, os três reis magos, carneirinhos, vaquinhas, burrinhos, um galo e finalmente aquela grande estrela de lata feita por papai há muito tempo!

O menino Jesus, só era colocado na noite da véspera de natal. Minha mãe colocava uma grande vela perto do presépio, e à meia noite, nos reuníamos para rezar. 

Hoje, sou eu que colho o galho seco, planto em uma lata de banha, enrolo cada pedaço de algodão por toda a sua extensão, retiro os enfeites da caixa de papelão, enfeito a árvore, monto o presépio com as mesmas peças que eu retiro da mesma caixa, guardada há anos e fico aqui admirando a minha solidão nesta noite de natal.



terça-feira, 30 de setembro de 2014

BODAS DE DIAMANTE



O casamento lhes rendeu filhas e cidades. Do filho não é bom lembrar. Educar filhas e construir cidades.

Tijolo, cimento e amor.

Sandra, Carla e Cláudia.

Brasília, Serro, Congonhas, Vitória e Betim.

A aridez das cidades muitas vezes fez o casamento árido, mas as luzes das cidades também fizeram brilhar muitos momentos de amor.

A gente vai se arquitetando e construindo melhor as cidades e os filhos. E a vida vai se amansando...

E vem os netos. Ah! os netos! Os construtores de lar e cidades ganham uma nova denominação: Avô e Avó.

Rodrigo e Michelle

Hora de ensinar a gostar e de cuidar dos passarinhos: Canarinho, Sabiá, Pretinho, Coleirinha e tantos outros que na primavera se reproduzem...

Assim como os netos, que se reproduzem em bisnetos e enchem a casa de música como no princípio.

Flauta, cavaquinho, bandolim, violão, pandeiro.

Os mesmos instrumentos que construíram as cidades e educaram as filhas: pá, enxada, metro, trena... formão, serra

Agora constroem brinquedos.

Isabelle, Pedro e João

E a vida vai girando como uma roda gigante, fazendo tudo voltar ao mesmo lugar.

Tijolo, massa, tijolo.

Sopinha, carinho, livro.

E música, muita música nesta história de muitos anos.

É uma pena que eu não esteja aí com vocês para cantar esta alegria de tantos anos.

A culpa é de vocês, com tudo isso eu aprendi a gostar de visitar as cidades.



Deus abençoe vocês.

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Releituras de Portinari


  Ontem ao visitar a exposição dos painéis Guerra e Paz, de Candido Portinari, no novo Cine Brasil, pude me deliciar com uma parte da exposição que sempre me atrai a releitura.

Na exposição havia duas releituras: As Esculturas de Sergio Campos e os Bordados do grupo Matizes Dumont. As duas me deixaram tonto. Os leões e a Menina de Trança de Sergio Campos complementaram a obra de Portinari. Os bordados fizeram com que eu voltasse ao passado lembrando-me das vizinhas que bordavam verdadeiramente obras de arte. Lembro-me que quando me casei, e lá se vão muito tempo, ganhei de presente uma caixa de lenços de cambraia, com o meu monograma. Presente das mulheres da família Moises. Presente único.

Mas voltando à releitura e pensando nas pichações do bendito Justin Bieber, lembrei-me das pichações de um muro aqui perto de casa, feito pelos Gênios da Lata, lá pelos anos de 2005. Eles retratavam duas obras de Portinari, Os retirantes e Menino morto. Ficaram lindas. As cores brilhantes e os traços precisos do grafite, tudo exposto na rua para ser visto por quem passasse.



Acima o Original de Portinari.
Abaixo a releitura feita pelos gênios da Lata em 2005



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Acima o Original de Portinari.
Abaixo a releitura feita pelos gênios da Lata em 2005


Grafite também é arte, e arte bonita de ser vista quando é feito com inteligência.


sábado, 30 de março de 2013

A Paixão segundo Botero



O artista Fernando Botero, Colombiano,conhecido como o pintor dos gordinhos, da a sua visão da Paixão e morte de Jesus Cristo. Vejam esta Via-Sacra.
















sexta-feira, 29 de março de 2013

Avô, conta outra vez







Acabo de ganhar um livro que devorei, em pé, sem respirar. As lágrimas saltaram dos meus olhos. É incrível como a arte faz a gente se sentir bem apesar das lágrimas. O que faz um texto virar obra de arte é a singularidade do plural. Quem não contou uma história para o seu neto? Qual neto não ouviu uma história do seu avô.



No livro "Avô, Conta Outra Vez", o escritor José Jorge Letria relata na forma de poema um dos ofícios de ser avô, “O de contar histórias”. Com ilustrações de seu filho André Letria, o livro encanta os avôs e as crianças.

A sensibilidade do autor em descrever os anseios do avô em transmitir para o neto a alegria de viver, faz o livro infantil virar um livro de adulto.

Peguei-me pensando na minha neta ouvindo as minhas histórias. Aquelas histórias que mamãe me contava e que eu contei para a minha filha. As histórias que li nos livros, e as histórias que criei. As histórias que a vida me fez viver e as que vi outros viverem.

Há! Este livro me fez feliz. Alguém antes de mim se fez avô, contou histórias, criou histórias e se relacionou com o neto como eu quero me relacionar.

Um livro que registra o momento mágico entre avô e neto, o momento de ouvir e de contar. Um livro lindo que como disse a sinopse: “Um livro para avós, pais e netos se lembrarem sempre do valor da palavra e da ternura que é capaz de unir gerações.”

Adorei! Obrigado Carla... você contribuiu para que eu me aprimore no ofício de ser avô.