terça-feira, 25 de janeiro de 2022

A voz do coração

 

A voz do coração

Edgar Allan Poe

Sim! Sou muito nervoso, terrivelmente nervoso, mesmo ― e sempre o fui; mas por que me supõem louco? A doença tornou mais aguçados os meus sentidos ― não os destruiu, não os embotou. Mais do que os outros, tenho uma audição aguçadíssima. Ouço admiravelmente bem todos os sons produzidos no céu e na terra. Tenho ouvido até muitas coisas do inferno. Como posso, pois, ser um louco? Atenção! Reparem bem com que perfeita lucidez, com que tranquilidade de espírito eu vou contar-lhes toda a história.

Ser-me-ia completamente impossível dizer-lhes como primitivamente a ideia entrou no meu cérebro; mas, uma vez concebida, nunca mais me abandonou, noite e dia. Fim, não tinha algum. A paixão foi estranha ao caso, por completo. Eu estimava deveras o pobre velho, que nunca me fizera o menor mal, que nunca me insultara. Nem mesmo invejava o seu dinheiro. Creio que foi o seu olho! Sim foi isso, decerto! Um dos olhos dele parecia os dum abutre ― um olho azul claro, recoberto por uma película nevoenta. Cada vez que esse olho me fitava, sentia gelar-me o sangue; e assim, lentamente ― por graus ― muito gradualmente ―, introduziu-se na minha mente a ideia de arrancar a vida do velho, para, dessa forma, me livrar para sempre daquele olho.

Agora, este é o ponto. Os senhores supõem-me louco. Os loucos não sabem de nada. Se me vissem! Se vissem com que inteligência eu procedia! Com que precaução, com que prudência, com quanta dissimulação eu meti as mãos à obra! Eu nunca fora mais solícito para o velho do que durante a semana inteira que precedeu o crime. E todas as noites, pela meia-noite, levantava o trinco da porta do quarto dele, e abria-a ― oh, tão devagarinho! E então, depois de suficientemente a entreabrir, introduzia no quarto uma lanterna de furta-fogo, fechada, hermeticamente fechada, que não deixava passar um mínimo raio de luz; em seguida metia a cabeça pela abertura! Oh, se vissem teriam rido da destreza com que eu metia a cabeça! Movia-se lentamente ― muito, muito lentamente ―, de maneira a não perturbar o sono do velho. Levei seguramente mais de uma hora para meter a cabeça pela abertura, muito antes de poder vê-lo deitado no leito! Ah! Um louco seria, porventura, tão prudente? Depois, quando tinha a cabeça dentro do quarto, abria a lanterna com precaução ― oh, com que precaução! ― porque o gonzo rangia. Abria então a lanterna de tal modo que o raio de luz fosse justamente incidir no olho de abutre. E fiz isto durante sete longas noites ― cada noite, à meia-noite ―, mas encontrei sempre o olho fechado, de molde a não poder, portanto, concluir o meu trabalho; foi por isso que disse não odiar eu o velho; o que eu odiava era o seu Olho Maldito! E todas as manhãs, logo que o dia nascia, entrava ousadamente em seu quarto, falava-lhe corajosamente, tratando-o pelo seu nome num tom cordialíssimo, e informando-me de como passara a noite. Bem veem que ele seria possuidor de uma dissimulação rara se desconfiasse que, a cada noite, à meia-noite em ponto, eu o examinava enquanto dormia.

Na oitava noite fui ainda mais prudente: abri a porta com mais precaução. A minha mão não fazia mover a porta com mais rapidez do que se move um ponteiro dum relógio. Nunca, como nessa noite, senti tão perfeitamente o poder das minhas faculdades, da minha sagacidade. A custo continha as sensações que o triunfo produzia em mim. Pensar que eu estava ali, abrindo a porta pouco a pouco, sem que ele pudesse sonhar as minhas ações ou meus pensamentos secretos! Ao ter esta ideia não pude deixar de rir um pouco, abafadamente; ele ouviu-me, talvez porque se voltou pesadamente no leito, como se tivesse acordando. Pensam por acaso que eu me retirei por isso? Não! O quarto, de tão profundas que eram as trevas, estava negro como pez, porque as janelas tinham sido fechadas cuidadosamente, por medo dos ladrões; e, sabendo que ele não podia ver a porta entreaberta, continuei a empurrá-la cada vez mais. Eu já passara a cabeça pela abertura, e estava prestes a abrir a lanterna, quando o meu polegar resvalou pelo fecho de ferro, e o velho sentou-se no leito, gritando:

― Quem está aí?

Eu fiquei completamente imóvel e não disse nada. Durante uma hora inteira não movi um só músculo, mas, também, durante esse tempo, não ouvi o velho deitar-se. Continuava, decerto, sentado na cama, de ouvido à escuta, justamente como eu fizera durante sete noites inteiras, escutando o barulho que fazia o pêndulo do relógio de parede.

Mas, de repente, ouvi um gemido fraco, que reconheci como o gemido resultante de um horror mortal. Não era o gemido de dor ou de pesar. Oh, não! Era o ruído surdo e sufocado que se desprende do fundo de uma alma apavorada. Conhecia bem aquele grito. Muitas noites, à meia-noite exata, quando todo mundo dormia, soltara-se de meu próprio peito um gemido igual àquele, excitando com o seu terrível eco os terrores que me atormentavam. Repito que conhecia aquele ruído. Calculava o que o pobre velho sentia, e eu tinha piedade dele, ainda que interiormente eu sorrisse comigo mesmo. Sabia que ele continuava acordado desde que se voltara no leito ao primeiro ruído que eu fizera. Desde então o seu pavor aumentara sempre de intensidade. Ele tentara persuadir-se de que não tinha razão para assustar-se, mas não pudera consegui-lo. Dissera a si mesmo: “Não foi nada, apenas o ruído do vento entrando pela chaminé, ou algum rato que atravessou o quarto”, ou então: “Talvez um grilo que começou a cantar”. Sim, sim, ele se esforçara por encorajar-se com estas hipóteses; mas tudo fora em vão. Tudo fora em vão porque a Morte, que se aproximava, passava diante dele com a sua grande sombra negra, envolvendo, assim, aquela vítima. Era a influência fúnebre da sombra que ele não percebera, que lhe fazia sentir ― apesar de nada ver nem ouvir ―, que lhe fazia sentir a minha cabeça no seu quarto.

Depois de esperar por muito tempo, impacientemente, que ele se deitasse de novo, resolvi entreabrir um pouco a lanterna, mas muito pouco, um quase nada. Entreabri-a com tanta cautela como dificilmente podem imaginar, até que por fim um pálido raio de luz, como um fio de teia de aranha, subiu da abertura, incidindo sobre o olho de abutre.

O Olho Maldito estava aberto, muito aberto, o que me fez enfurecer logo que o fitei. Vi-o com uma perfeita nitidez ― o azul claro coberto com o hediondo véu que me gelava o sangue nas veias; mas eu nada podia ver do rosto ou do corpo do velho, porque dirigia o raio de luz, como por instinto, sobre o ponto maldito. Em seguida ― eu não lhes disse que o que os senhores tomavam por loucura era uma grande penetração dos meus sentidos? ―, em seguida ouvi um outro ruído surdo, sufocado, contínuo, semelhante a um ruído que pode fazer o pêndulo dum relógio envolvido em algodão. Eu reconheci esse som. Era o bater do coração do velho. Esse som aumentou o meu furor como o rufar do tambor aumenta a coragem de um soldado.

Mas contive-me ainda, e continuei ali, sem me mexer. Somente respirava, conservando a lanterna imóvel para que o raio de luz saído dela continuasse a iluminar o olho maldito. Entretanto, o infernal bater do coração era cada vez mais forte, a cada instante mais precipitado. O terror do velho devia ser extremo! O bater o coração, eu disse, era cada vez mais forte, de instante para instante! Repararam bem em tudo o que lhes disse? Então devem lembrar-se que lhes declarei ser excessivamente nervoso, e, com efeito, eu o sou. Portanto, em plena noite, no meio do silêncio terrível daquela casa, um tão estranho ruído fez com que se apossasse de mim um irremissível terror. Durante alguns minutos ainda, contive-me e continuei calmo. Mas o ruído era cada vez mais forte, sempre mais forte! Cheguei a supor, até, que o coração ia rebentar. E então apoderou-se de mim uma nova angústia: o ruído poderia ser ouvido por algum vizinho! A hora do velho chegara, pois! Saltando um grande grito, abri bruscamente a lanterna, e entrei no quarto. O velho deu apenas um grito, um só, porque eu o lancei no assoalho, virando-o e jogando-lhe sobre o corpo o pesado leito em que antes dormia tranquilamente. Sorri, então, por ver a minha obra tão adiantada. Mas, durante alguns instantes ainda, o coração batia, produzindo um som abafado, que não me incomodou, porque não podia ser ouvido através duma parede. Por fim, cessou. O velho estava morto. Levantei o leito e examinei o corpo. Sim, estava morto, morto e rígido. Coloquei-lhe a mão sobre o coração, conservando-a ali durante alguns minutos. Nem uma pulsação. Ele estava morto e rígido. O seu olho, portanto, não me atormentaria mais!

Se persistirem ainda em supor-me louco, essa suposição evaporar-se-á ao descrever-lhes as inteligentíssimas precauções que tomei para ocultar o cadáver.

A noite avançava; comecei, pois, a trabalhar apressadamente, mas em silêncio. Cortei-lhe a cabeça, depois os braços, depois as pernas. Em seguida, despreguei três taboas do assoalho e meti todas as partes do cadáver pelos buracos que elas tinham deixado. Depois preguei de novo as tábuas tão habilmente, tão desveladamente, que nenhum olho humano ― nem mesmo o dele ― poderia descobrir no assoalho o mínimo sinal de que tinham sido levantadas. Não havia o que limpar ― nem uma mancha, nem um pingo de sangue. Procedera muito prudentemente para deixar qualquer vestígio. A tina em que cortara o cadáver absorvera todo o sangue, ha! ha!

Quando acabei a minha obra, pelas quatro horas da madrugada, a escuridão era tão profunda como à meia-noite. No momento exato em que o relógio dava uma hora da tarde, bateram à porta da rua. Desci para abrir alegremente, porque nada tinha a temer dali em diante. Entraram três homens que com toda delicadeza apresentaram-se como agentes de polícia. Um vizinho ouvira um grito, na noite anterior, o que levantara a suspeitar de que um crime teria sido praticado; como fizera a respectiva denúncia no comissariado de polícia, tinham ordenado àqueles senhores que revistassem a casa.

Ao saber qual o fim dos policiais, sorri ― pois o que eu tinha a temer?

Declarei-lhes que sentia um verdadeiro prazer em lhes falar, e disse-lhes que o grito ouvido pelo tal vizinho fora eu que o soltara durante um sonho. O meu velho patrão, acrescentei, partira para uma viagem. Depois desta explicação, mostrei toda a casa aos policiais, convidando-os a procurarem bem. Por último, eu os conduzi ao quarto dele, e mostrei-lhes todos os tesouros do velho, perfeitamente intactos.

No entusiasmo de minha confiança, instei os policiais para que sentassem, para que descansassem um instante; e, com a louca audácia dum triunfo completo, puxei uma cadeira e sentei-me, depois de tê-la colocado exatamente sobre as tábuas que cobriam o corpo da vítima. Os agentes de polícia estavam satisfeitíssimos. A forma clara e precisa com que eu fizera as declarações convencera-os. Sentia-me singularmente à vontade. Sentaram-se e começaram a falar coisas triviais, às quais que eu respondia alegremente.

Pouco depois, senti que empalidecia, e só pensei em me livrar deles. Sentia insuportáveis dores de cabeça, e grandes badaladas nos ouvidos; mas os policiais continuavam sentados, sempre falando. As badaladas não acabavam e, pelo contrário, eram cada vez mais distintas. Comecei a falar mais alto para me livrar daquela sensação; mas as badaladas persistiam, tomando um caráter tão puramente definido que, por fim, percebi não se produzir sem os meus ouvidos.

Eu estava muito pálido, sem dúvida ― mas falava sempre, levantando a voz cada vez mais. O som aumentava sempre ― o que eu podia fazer? Era um ruído surdo, sufocado, frequente, semelhante ao ruído que pode fazer o pêndulo de um relógio envolvido em algodão. Eu respirava a custo. Os policiais nada tinham ouvido.

Conversei com mais verbosidade ― com mais veemência ―, mas o ruído aumentava incessantemente. Levantei-me e comecei a questionar sobre ninharias, num diapasão elevadíssimo e com uma violenta gesticulação; mas o ruído aumentava, aumentava sempre. Por que eles não queriam ir embora? Eu passeava desesperadamente pelo quarto, a grandes passadas, batendo surdamente com os pés no chão, como que exasperado pelas observações de meus contraditores; mas o ruído crescia regularmente. Oh, Deus! O que podia eu fazer? Enraivecia-me, espumava, praguejava. Movia em todos os sentidos a cadeira em que de novo me sentara, fazendo-a ranger sobre o tabuado; mas o ruído aumentava sempre, crescia indefinidamente, tornava-se de instante para instante mais forte ― mais forte! ―, sempre mais forte. E os policiais, sorrindo e palestrando, sempre prazenteiramente! Seria possível, por ventura, que eles nada ouvissem? Deus onipotente!

Não, não! Eles ouviam! Eles suspeitavam! Eles sabiam! Eles divertiam-se com o meu terror! Foi isto que supus, então. É isto que ainda hoje suponho. Nada mais intolerável para mim que aquela descarada zombaria! Não podia mais suportar aqueles sorrisos hipócritas! Senti que, para não morrer, precisava gritar! E agora ainda, não ouvem? ― Escutem! Mais alto! Sempre mais alto!

― Sempre mais alto, miseráveis! ― Gritei para os policiais. ― Não dissimulem por mais tempo! Confesso o crime! Arranquem essas tábuas! É aí que ele está! É aí! E esse som que ouvem é o bater do seu execrável coração.

domingo, 26 de dezembro de 2021

MICROCONTOS

 

Velório

Ela pediu que seu velório fosse festivo, com muita música, cantoria e até uma cachacinha. Muitas flores, mesmo que fossem de plástico. Que fosse um velório alegre, como ela era.

Obedeci

Chamei todos os amigos músicos e pedi que cada um trouxesse o seu instrumento.

 Veio gente com Guitarra, Viola, Violão, Bateria, Batuque, Reco-reco, Fanfarra, Trompete/trombeta, Flauta, Clarinete, Saxofone, Marimba, Violino, Pandeiro, Acordeão.

Foi um espetáculo tão bonito, que ela levantou do caixão e aplaudiu de pé.


Aniversário

Acriança interna que ele carregava no peito estava mais vibrante e disposta a se expressar.

Ele se permitiu escutar o que dizia seu coração.

Sua conexão para consigo próprio e com suas necessidades estava alta.

Estava se cuidando e se expressando mais e com mais autenticidade.

Havia maior fluidez também para viver romances e se aventurar na vida.

Era dia do seu aniversário


Para Marília Mendonça

O seu fogo interno ardia no sentido da fé que dias melhores viriam.

Ela sonhava com as possibilidades futuras, tudo aquilo que lhe trazia expansão e otimismo.

A fé aumentada em si mesmo, um posicionamento devocional a si mesma.

Fé e ação estavam alinhados.

De repente o avião caiu.

Ação impulsiva

Ele estava muito mais impulsivo e rápido em suas ações e tomada de decisões.

Era preciso sair da estagnação e ter atitudes inovadoras.

Mas lhe faltava jogo de cintura e adaptabilidade para novas possibilidades.

Rezou e foi dormir

Precisava de força para mudar em ternos materiais e financeiros a sua vida.

No seu subconsciente, a vida pedia um olhar mais transcendente e espiritual sobre a vida material.

No dia seguinte, acordou, levantou-se, pensou...

E resolveu voltar para o melhor lugar do mundo, a cama.

71

A sua mente buscava o âmago das questões.

A investigação ganhava força dedutiva e intuitiva.

A imaginação era facilitada e temas emocionais foram bem processados.

A análise de questões do passado, infância e familiares lhe auxiliaram na libertação de velhos traumas e complexos.

Ele estava amadurecendo, afinal já estava com 71 anos.


O Seu futuro, com certeza, é menor do que o passado.

Um passado marcado pela consciência dos princípios apreendidos na infância. Ética, fé, alegria, otimismo.

Acreditava no brilho que transparece pela alegria, impulso, coragem e sabedoria.

Nada disso adiantou...

Aniversário

Mas o Sol retornou à sua posição de nascimento e suas capacidades naturais de otimismo, fé, alegria, impulso, coragem e sabedoria agora são enxergadas através do divino.

Um novo ciclo em sua vida se inicia.

Feliz aniversário!!!


Lunático

Ele não se preocupava muito com lógica ou linearidade, mas em se abri para tais estímulos.

Sua comunicação ganhava carisma e irreverência.

Verbalizava sentimentos ou questões ocultas em voz alta.

Tudo que estava à sua volta estimulava seu campo mental, trazendo importantes intuições e insights.

Diziam que ele era lunático.


Cantilena

Ele não conseguia ouvir a Cantilena das Bachianas brasileiras número 5 de Heitor Villa-Lobos, sem chorar. Pediu que quando morresse, alguém cantasse para ele enquanto estivesse sendo velado.

Assim fizeram...

Todos em volta choraram. Ele não!

Feliz

Tudo lhe motivava ao contato emocional com o outro, com parceiros, com o público e a vida social. Verbalizava aquilo que sentia ao outro, se rodeava de pessoas queridas sem perder a objetividade e pragmatismo.

Era feliz.

quinta-feira, 30 de setembro de 2021

TRAVESSIA

  

É de manhã ... um raio rosa, desliza da fresta da janela para a cama branca.  Toca no cabelo dele, e o faz abrir uma pálpebra.

Então ele deixa entrar a luz em seus olhos azuis. Olha e ri, porque o raio parece dizer a ele:

-Vamos ser felizes!

Ele colocava na radiola o disco da Elis Regina na faixa “Travessia” do Milton Nascimento e Fernando Brant, com arranjo do Cesar Camargo Mariano, para me despertar.

 O meu espreguiçar fazia que cada pelo do meu corpo nu e todos os poros, tremessem e respirassem felicidade.

De tudo que vivemos, esta é a lembrança que ficou marcada em mim.

Tomamos o café, que ele, preparou em silêncio. Os olhos falavam o que a boca calava.

Saímos em sentido opostos, ele ia cuidar do sagrado e eu do profano.

Muitas vezes choramos ouvindo Elis, ele sabia que eu gostava. Ela nos fazia transitar entre o profano e o sagrado num átimo. Quando ele me levou para conhecer o mar, ouvimos todas as músicas que ela cantava no trajeto.

"O Cavaleiro e os Moinhos” éramos nós, "Um por Todos" nosso lema. "Conversando no Bar” e tomando uma cerveja era a nossa "Fascinação". "Boa Palavra" ele tinha, nas duas línguas que falava, mesmo se fosse "Pra Dizer Adeus" era "Carinhoso". Na nossa “Andança” fomos ao "Corcovado", tudo como "Fotografia", "Inútil Paisagem", "Pois É” eu só tinha olhos para ele. Era um "Amor até o Fim" "Por toda a Minha Vida" "O Que Tinha de Ser" "Só Tinha de Ser com Você". Mas como tudo na vida tem fim, como um "Veleiro" "Triste” ouve um "Soneto de Separação" sobrando apenas um "Retrato em Branco e Preto". 

 

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

FITA VERDE NO CABELO

 


Sempre gostei da intertextualidade. No curso de letras tive duas professoras de teoria da literatura que me estimularam neste gostar. Ivete Lara Camargos Walty e Maria Helena Rabelo campos. Um dos trabalhos feitos por elas foi uma leitura comparativa das histórias “ Chapeuzinho Vermelho e Chapeuzinho Amarelo” a partir de sua relação intertextual. Chapeuzinho Amarelo de Chico Buarque e a tradicional Chapeuzinho Vermelho de Charles Perrault, que depois foi reformulada pelos irmãos Grimm.

 

Existem muitas teorias por trás dessa história e versões bem mais adultas para o roteiro do conto infantil. O escritor francês, Charles Perrault foi o primeiro a mencionar a história de Chapeuzinho Vermelho, em 1697, fazendo com que a narrativa chegasse à Europa pela primeira vez.

No ano de 1812, os irmãos Grimm reformularam a história para que ela ficasse mais adaptável para o mundo infantil, tirando toda a parte sangrenta da primeira versão, eles deixaram a história como conhecemos hoje.

Na lenda, a protagonista adolescente acabou de entrar na vida adulta, por isso a cor de sua capa é vermelha, remetendo ao sangue de sua primeira menstruação. Nas duas versões, sua mãe pede várias vezes que a filha não fale com ninguém, algo que a garota desobedece imediatamente, quando um lobo sugere que a menina pegue um atalho para levar flores para sua avó. As versões começam a mudar, quando o Lobo chega à casa da velhinha.

 

Nas versões originais transmitidas oralmente pelos camponeses, haviam vários elementos grotescos, sensuais e até mesmo obscenos que acabaram sendo suprimidos por narradores posteriores.

Nna história original, o bicho mata a avó, corta seu corpo, coloca em um prato como jantar e mantém seu sangue em uma garrafa como um vinho.

 

Mais sangue e carnificina em episódios de canibalismo, quando o vilão oferece para a menina a carne que está em seu prato. Sem questionar, a jovem o faz. Logo após o ato, o Lobo gargalha da menina informando que ela tinha acabado de cometer um dos maiores pecados: o canibalismo. Logo após, o animal devora Chapeuzinho. Sem nenhum caçador para salvá-la dessa vez.

 

 

João Guimarães Rosa, o nosso poeta do sertão, não ficou pra traz e também deu a sua contribuição recriando a história da nossa Chapeuzinho Vermelho. O seu final é surpreendente.

 

FITA VERDE NO CABELO

Nova velha estória de João Guimarães Rosa

Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos com juízo, suficientemente, menos meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.

Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sôbre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.

Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: –“Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou”. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.

E ela mesma resolveu escolher tomar êste caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiínhas flôres, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejamente.

Demorou, para dar com a avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu: — “Quem é?”.

–“Sou eu…” — e Fita-Verde descansou a voz. — “Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou”.

Vai, a avó, difícil, disse: — “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençoe”. Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.

A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: — “Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo”. Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:

 

— “Vovòzinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!”

— “É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta…” — a avó murmurou.

— “Vovòzinha, mas que lábios, ai, tão roxeados!”

— “É porque não não vou nunca mais poder te beijar, minha neta…” — a avó suspirou.

— “Vovòzinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido?”

— “É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha…” — a avó ainda gemeu.

Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.

Gritou: — “Vovòzinha, eu tenho medo do Lobo…”

Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.