Entrevista com Mercedes Sosa
José Marcos Ramos
Introdução
Em 1980, eu participava da
revista “Opção” quando fiz uma entrevista com a cantora argentina Mercedes
Sosa, conhecida como “La Negra”. Ela me concedeu esta entrevista após a sua
apresentação no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. A revista fechou antes da
entrevista ser publicada. A gravação ficou perdida por décadas em uma fita
cassete, até ser resgatada recentemente. Nela, Sosa fala sobre a música
folclórica latino-americana, o papel da mulher na sociedade, seus direitos, o
valor da arte e a relação com o Brasil e seus músicos. Suas respostas refletem
sua visão engajada, poética e humana, característica que marcou toda a sua trajetória.
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1. Como a senhora se sente
levando o folclore argentino e até latino-americano para o resto do mundo?
Alguém disse uma vez que,
cantando para a sua aldeia, já se é famoso. Não se trata da fama pessoal, mas
sim do conhecimento do nosso continente — que ainda é bastante desconhecido em
muitas partes do mundo. Para alguns, a América Latina é apenas algo “exótico”,
musicalmente exótico. Mas, de uns tempos para cá, perceberam que nossos
cantores, poetas e músicos não são apenas exóticos no modo de se vestir: eles
pensam. E quando pensam, têm uma visão coletiva do mundo, um sentimento
profundo sobre a humanidade.
2. Qual é o segredo para que uma
cantora de música folclórica alcance tanto sucesso?
O sucesso às vezes chega, às
vezes não. Às vezes há indiferença. Mas até mesmo da indiferença e do fracasso
é preciso tirar experiência. Devemos perguntar: qual é a razão de não alcançar
o sucesso? Muitas vezes sozinhos não conseguimos. O sucesso precisa ser
coletivo. Para que um artista seja reconhecido, ele deve caminhar junto com o
povo. Armando Tejada Gómez dizia: “Um homem sozinho é apenas um homem”. Eu
penso o mesmo: um artista sozinho não alcança nada.
3. Quando será lançado no Brasil
o seu LP Cantata Sudamericana?
A Cantata Sudamericana está para
sair nestes dias. É um disco antigo, que gravei em 1972 com Ariel Ramírez,
Domingo Cura na percussão, Além no contrabaixo e outro guitarrista. Nicolás
Brizuela está comigo apenas há três anos.
4. Qual é a sua opinião sobre
Domitila Barrios de Chungara?
Domitila, a boliviana? Nós temos
profunda admiração por ela. Foi uma das líderes do Congresso Internacional da
Mulher, realizado no México. Sabemos que é operária, que vive a 5.000 metros de
altitude, e conhecemos a luta de uma mulher para se erguer neste nosso
continente. Tenho por ela — e pelo povo boliviano — toda a admiração e
respeito, porque vivem em condições muito duras.
5. Se a senhora pudesse falar
livremente, o que diria?
Penso que, mesmo quando nos
permitem falar, é preciso fazê-lo com medida, com responsabilidade. Não se
trata apenas de poder falar, mas de como falar. É necessário equilíbrio,
discrição e verdade.
6. Qual é a sua opinião sobre a
mulher e seus direitos?
Penso que os direitos da mulher
devem ser os mesmos que os do homem. Mas, durante muito tempo, a mulher esteve
“protegida” — ou melhor, controlada. Seus direitos eram examinados e decididos
pelos homens, a partir da justiça e de todos os lugares de poder.
A mulher precisa conquistar muito
terreno. E volto a repetir: uma mulher sozinha, mesmo em um triunfo, é apenas
uma mulher. Ela precisa do amor dos amigos, da sua gente, dos companheiros, dos
filhos — assim como também precisa o homem. Talvez o homem esteja mais
preparado para viver sozinho, suponho que seja assim.
De qualquer forma, a mulher
avançou em muitos campos, sobretudo na educação, como mestra, como professora.
No mundo inteiro, ela ganhou espaço. Mas como dirigente ainda falta: é preciso
que os homens também abram espaço, para que a mulher não esteja sempre em
segundo plano, mas em igualdade de condições.
Existem tarefas que, por razões
físicas, talvez não possamos realizar. Mas há outras que não precisam ser
feitas da mesma forma. Se eu tivesse sido homem, não gostaria de sê-lo. Cada
papel tem sua dignidade.
Na parte intelectual, penso que a
mulher pode estar exatamente no mesmo nível que o homem. Assim como pode haver
homens menos inteligentes, também pode haver mulheres menos inteligentes, ou
mais inteligentes. Isso depende da pessoa, não do gênero.
E espero que vocês, brasileiros,
acompanhem esse caminho que a mulher já iniciou, de ascensão plena. Porque, no
fundo, nós mesmas também somos responsáveis por muitas das limitações que
sofremos, quando nos sentimos demasiado enfraquecidas.
7. Além de Milton Nascimento e
Chico Buarque, que outros compositores brasileiros a senhora destacaria?
Conheço Geraldo Vandré. O vi em
Paris, sei da sua trajetória e das dificuldades que enfrentou. Mas artistas
como ele, que dizem verdades, mesmo sofrendo, acabam se fortalecendo ainda
mais. A arte tem essa força: mesmo nas situações mais duras, continua cantando
e levantando outros. Em todo o mundo é assim: sempre há alguém que canta e dá
esperança, mesmo quando tudo parece difícil.
8. Diga alguma coisa que a
senhora acredita que nós, brasileiros, precisamos ouvir.
Vocês, brasileiros, têm a melhor
música do mundo. Eu não sou ninguém para dizer o que precisam ouvir — penso que
vocês mesmos sabem melhor do que ninguém. Conheço pouco do movimento político,
mas sei quem são os patrões. Ainda assim, percebo que vocês amam seus músicos
populares e os protegem. Espero que isso continue assim, que continuem cuidando
deles como fazem agora.
Desejo que os artistas possam
viver cantando, e não apenas opinando, como dizia Martín Fierro. Porque, por
exemplo, quando Chico Buarque canta Mulheres de Atenas, ele está dizendo coisas
muito importantes, realmente. Não é uma canção de conteúdo político duro, mas
tem grande profundidade e beleza sonora.
Eu penso que vocês estão no
caminho certo, junto ao povo. Têm todas as cores na música popular: do branco —
e não digo “negro”, como dizia Violeta Parra — mas passando por todos os tons
de cinza, pelos matizes tênues e também pelos mais fortes. Assim como é o clima
de vocês, cheio de contrastes.
Acredito que vão por um bom
caminho, e não sou ninguém para falar de vocês. Apenas deixo um abraço muito
grande e a esperança de que, quando eu voltar a Belo Horizonte, possamos nos
encontrar novamente.

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